Vozes de São Sebas!

Eu sempre leio artigos e opiniões em diversas mídias, são conteúdos  que me chamam atenção. Por outro lado, sempre tive vontade de saber o que pensam as pessoas que moram na minha cidade, qual a opinião de quem compartilha de uma realidade parecida com a minha?

Pensando nisso, criamos o “Vozes de São Sebas!”, um blog onde os moradores da nossa cidade poderão expressar suas opiniões e pontos de vista sobre assuntos do nosso cotidiano.

Nesta primeira fase Gabriela Martins, Diogo Ramalho, Ricardo Caldeira e Karla Ramalho serão as vozes fixas, mas toda quarta feira a voz de são sebas pode ser VOCÊ.

Escreva para: vozesdess@gmail.com que selecionaremos o seu texto para ser postado no nosso blog!

Leia! Compartilhe! Escreva!

 

Samuel Estrella –  Músico, Produtor, Conselheiro de Cultura – Representante do Coletivo Calangos Sounds.

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Aos cuidados

Não há o inteiro,

Existo como fragmento,

A vida de um vaso que já foi derrubado tantas vezes que não se contam mais os pedaços

Remendado sempre faltando um pedaço,

Grande,

Miúdo,

Sempre um pedaço por faltar.

 

Mosaico de tantas aventuras e desventuras

Que me fazem irremediavelmente o que sou!

Nunca inerte,

Sempre algo a contar,

Uma cicatriz que ainda sangra.

A capacidade de assustar muito maior que a de socializar.

 

Uma imagem em cada caco de espelho que se espalha pelo chão,

Sou cada um deles…

Debaixo do sol,

Escondido da chuva,

Sentindo a brisa leve que acaricia meus cabelos,

A criança simplória que sonha em ser astronauta.

 

Ainda falta muito

Até que não sobre nada,

Muita cola e durepox ainda estão por vir.

 

Aos cuidados de um bom destino.

 

diogoDiogo Ramalho

Liberdade frouxa

Nas quartas-feiras no “Vozes de São Sebas” teremos sempre um autor diferente para dividir uma reflexão, uma poesia, um conto, uma crônica, ou mesmo uma opinião. Quem pode escrever?? Qualquer pessoa com vivência na cidade, que mora aqui ou que contribui na dinâmica da nossa comunidade. O importante é conhecermos um pouco das vozes que ocupam nossa cidade. Se você também quer ter seu texto no “Vozes de São Sebas” basta entrar em contato com a gente por meio do e-mail vozesdess@gmail.com ou ainda por meio da página do facebook.

Hoje a voz é do Matheus Costa, professor do Chicão e um dos organizadores do Projeto Escola na Rua!

Maria Aparecida e Sebastião sempre estão nos eventos: não deixam sequer uma escapar, amassada ou não, eles a guardam. Dispostos a ganhar o sustento diário, não pensam em si, só querem o fardo do trabalho, que lhe é imposto.

Não querem deixar o filho ter a vida sofrida que a eles foi imposta, porém não é fácil, sempre atrás de bicos e trocados. Lápis e caderno, não deixam faltar a Pedro, que quando criança aprendeu a correr antes do que caminhar, a falar precocemente e o pai nosso tão cedo quanto possível.

Alertado, ele era diariamente. Esforçava-se nos estudos para buscar a liberdade vendida. Terminar o Ensino Médio foi uma conquista. Mais longe que os pais, ele já foi. Ficaram pelo caminho, reféns do arroz e feijão.

Mas a maior ainda estava por vir: não teve medo do futuro, FIES buscou e na faculdade ingressou.

4 anos se passaram e em administração se formou.

Emprego foi buscar, até que um dia vibrou: trabalhar em uma grande empresa de bebidas.

Começou pequeno, auxiliar administrativo.

Funcionário exemplar nunca deixou serviço pela metade, mesmo que lhe faltasse alguns minutos para fazer o cursinho de inglês à noite.

Minutos viraram horas para ele, e para empresa horas virariam minutos em seu salário. Aos sábados pagavam a mais, vislumbrava aquele tênis comprar.

Sua ascensão acontecia, ia de vento em polpa, no cargo de gerente foi parar.

Cobrava e cobrava empenho, comissão por desempenho ele almejava alcançar. Manter as contas em dia era mais que necessário, até o dia em que viu suas calças caírem. Por falta de um cinto? Não! Seus bolsos pesaram, pois estavam cheios de boletos.

Viu-se na mesma situação que os pais. Vendo a vida passar, já tinha virado pai e a filha Isabel já não podia mais acompanhar. O casamento com Raíssa virou nada mais que obrigação de sustentação de uma casa, que pela ausência, tornou sua segunda casa.

Triste, olhava para os “pauzinhos” do boleto e conseguiu ver que representava cada pessoa que era menosprezada em seu trabalho.Pior, viu seus pais, catadores, apenas mais dois funcionários, pior ainda: os mais desvalorizados. Lembrou-se da barra que era sustentar aqueles códigos de barra. Entendia porque suas calças caiam.

 

13344645_1065063990217459_8750583697188088771_nSou Matheus Costa: Favelado desde nascença, educador por amor a difusão de bons valores, escritor de ruelas que ampliam o intelecto.

 

 

 

O dia em que aceitei o que não compreendo

Esta é a minha segunda postagem no Vozes de São Sebas mas pra mim é como se fosse a número 0.  Primeiro porque é como se ela fosse um ensaio para ela mesma, segundo porque a forma como estou escrevendo contraria todas as expectativas do que venho exercitando e do que espero de entregar um trabalho nos padrões de qualidade que eu desejo, no que se refere a antecedência, tempo para pensar no conteúdo, preparar o texto com calma e não às 1h24 da própria terça-feira, dia em que ele é publicado. Ou seja, essa postagem está sendo feita horas antes do pão que você comerá no café da manhã. Um pão e uma tela quente.

Mesmo assim, confesso que há algum tempo o improviso tem me sido bem confortável como uma forma de administrar todas as demandas extras que aparecem ao longo do meu percurso, e a maioria delas irrecusável. Mas por que sempre assim, tão provisório? E, como estava conversando com a minha amiga Van essa semana, um compromisso, data, textos escritos e números nos forçam psicologicamente a produzir, a nos mover. Como pode, a emoção, algo tão abstrato e íntimo ser motivada ou até despertada por algo tão pontual, quadrado e geométrico quanto as expressões numéricas das horas e do calendário?

De qualquer forma, estou eu aqui em frente ao computador de cara com o início da madrugada, algo que há algum tempo vinha fugindo, como um acordo de saúde que fiz com o sol e com o descanso para o meu corpo. Enfim, razões desconhecidas me trazem até aqui nesse momento e você até este ponto final. Revirando meu computador a procura do que poderia mostrar pra vocês, relembrando páginas que criei que supostamente dariam uma guinada na minha vida profissional e artística mas que hoje contam aí com seus poucos acessos, abrindo pastas, blocos de notas e arquivos do Word com textos confessionais e que hoje julgo de qualidade duvidosa, resgatei o link de um zine que produzi há algum tempo atrás e que foi muito importante dentro daquele momento. Quero compartilhar um pouco do seu processo criativo.

Práticas de nomeação do real, este zine aqui foi produzido no final de 2014 e que é distribuído nas versões impressa (é só falar comigo) e na eletrônica pela plataforma de leitura on-line ISSUU. O título faz referência ao esforço racional em compreender as emoções como forma de dominá-las. Ele contém vários dos meus elementos criativos e pessoais em comunicação – o texto, a pintura e a fotografia. Todos os elementos que descrevi tem um forte teor confessional e é um dos meus trabalhos onde mais expus minhas aflições, mas que uma grande aflição é justamente a relação de espelhamento entre a emoção e a sua forma de expressão. Eu me percebo e busco compreender o que sinto escrevendo, me olhando no espelho e também através da tela do computador. Mas nestes mesmos locais onde me acho, também me perco e me distraio, onde as vezes questiono se a realizo as minhas buscas pessoais de uma forma tão intensa que poderia fazer um efeito contrário, me afastar de mim mesmo.

Um questionamento muito forte que me veio durante a produção desse zine é a relação do ser humano com as superfícies nas quais ele se vê refletido: a tela de um computador, um espelho e a própria linguagem escrita, aquela que produz a História. Até que ponto seríamos escravos do registro, vivendo para expressar que estamos vivos?

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Arte de Ricardo Caldeira

Ricardo Caldeira

Errado

Errado é não fazer nada,
Ficar reclamando no ponto
E quando chega o ônibus
Paga o assalto e viaja calado.

Errado é não saber nada
E falar besteira como uma torneira aberta que desperdiça água,
Aceitando e reproduzindo tudo que a TV te fala
E sendo um tolo dessa massa manipulada.

Errado é…
O que é errado?
Pois nos tempos atuais
Joga-se o jogo do contrário,
Fazendo do erro acerto
Enquanto o certo é amordaçado,
Trancado no armário
Vivendo no cativeiro dos senhores midiáticos.

Errado é viver desinformado,
Botar a culpa no oprimido que recebe bolsa do Estado,
Enquanto isso a empatia escorre pelo ralo
E assim está feito o estrago.
O povo indignado brigando contra os inimigos errados.

diogoDiogo Ramalho

LOUCA DE VERSOS

Louca de versos
Para os corações desiludidos
Louca de versos

Fazendo da poesia meu abrigo.

Louca de versos
Para minha caminhada
Louca de versos
Para uma vida menos pesada.

Faço rimas
De amor e dor
Misturando fracasso
Desejo e cor.

Louca de versos
Pois pratico eternidades
Saiu da cabeça da poeta
Não é mais sua propriedade.

Vou caminhando por aí
Tentando achar poesia
Pode está na brisa leve
Ou no sol que ilumina o dia.

E a poeta tem a loucura
Como sua maior qualidade
Chora, bebe, ri
Faz rima com sua saudade.

Deixe-me conviver com meus poemas
Antes de jogá-los no mundo
E que se apropriem deles
Os loucos, solitários, vagabundos.

Sou a loucura dos meus versos
Pois essa é minha verdade
Transformando sentimentos em palavras
Sou poesia de fim de tarde.

 karlaKarlinha Ramalho

 

MELANINA

Um dia me chamaram de preta
E eu nem entendi muito bem
Mas me ofendi.
Tomada de inocência,
mas já sentia
O peso do fardo que empurravam em mim.

Uma infância arrodeada de dedos
apontando defeitos que eu nem sabia que eram.
E como se eu estivesse marcada
me questionava:
“Por que?
“se nem minha pele era tão escura assim..”

O cabelo eu penteava e penteava e penteava…
Nao adiantava:
Tomava formas
Criava voltas
Aumentava a todo o volume.
Mas não, nao estirava.
Até que por milagre,
pro-gres-si-va-men-te alisou.
Foi o ápice de auto-estima!
Agora sim! Fiquei bonita. Agora sim!

Mas uma vergonha ainda me tomava conta
Horas me sentia mentirosa
Outras, fantasiada.
Quem sou eu e onde estou?
Por que não serve só ser eu?
 Não, ainda não!

Eu sou a melanina concentrada em cada cicatriz da minha pele.
Eu sou as voltas e o volume enraizados no meu cabelo
Eu sou o nariz redondo
Os labios carnudos
O quadril que tem samba, que tem dança
A mulher forte e bela por ser.
Valorizada
não por beleza e vuco-vuco.

Sou a cultura do tambor
Das danças de roda
Sou todo um povo alegre e acolhedor
Que sofre, trabalha e luta!
Que dominada e oprimida pelo dito “belo”
Se encolheu
Até retomar suas raizes e se expandir
pelo orgulho de defender quem é!

 Não é parda, nao é lisa, nao é filha do vento.

Tenho origem, tenho história:
Sou Brasil e sou Africa em uma só mulher.
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Gabriela Martins

RAÍZES INVISÍVEIS CRESCEM AO CONTRÁRIO

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Ricardo Caldeira explora diversas linguagens e plataformas artísticas como a pintura, zine e arte digital, integrando-as ao seu exercício de corporeidade. De maneira tortuosa e bruta, busca uma fala íntima e espontânea que se evidencia ao mostrar as máscaras que adornam um corpo que dança para não doer. Desde 2014, compartilha e constrói seu processo criativo em atividades de formação que trabalham a relação entre as diferentes linguagens das artes visuais, com temáticas voltadas à corporeidade, sexualidade e gênero e pertencimento a comunidade.
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A entrega e dissolução trazem consigo a dor característica de um rito de passagem. O corpo poderia fundir-se pacificamente com a paisagem, se não fosse a tensão que há entre as suas partes, o sintoma do paradoxo que o aflige. O tórax projeta-se em direção oposta a pélvis e crânio, entregues a base. Talvez o desejo de seguir na direção oposta do restante do corpo, ou o medo de levar a cabo uma ação irreversível.

Nas partes que se depositam sobre a superfície, linhas interpõem-se como peles acumuladas, que se espalham e dissolvem na paisagem. O corpo se divide em dois: o centro se eleva enquanto as extremidades esmorecem. Ambas não satisfeitas com o plano no qual se encontram, desejam simultaneamente ações fisicamente impossíveis: sublimar e afundar. Nesse embate, a coluna vertebral enverga-se – é o único elo entre elementos antagônicos.

Na agonia do rosto, a síntese do esforço incessante de suprir um desejo. Em todas as partes do corpo e cada uma a sua maneira, o sofrimento projeta-se sobre a pele. Entretanto, encontram-se na raiz da resistência os precedentes que levaram ao ab
andono do corpo. Sem razões evidentes, as formas que definem a sua existência são os escombros do que suas pulsões o levam a transfigurar.

Assim, esse corpo em conflito sempre continuará em sua dinâmica, mas é apenas neste ambiente que ele ganha espaço para expressar-se antes de se desfazer nas areias movediças da memória.