Vozes de São Sebas!

Eu sempre leio artigos e opiniões em diversas mídias, são conteúdos  que me chamam atenção. Por outro lado, sempre tive vontade de saber o que pensam as pessoas que moram na minha cidade, qual a opinião de quem compartilha de uma realidade parecida com a minha?

Pensando nisso, criamos o “Vozes de São Sebas!”, um blog onde os moradores da nossa cidade poderão expressar suas opiniões e pontos de vista sobre assuntos do nosso cotidiano.

Nesta primeira fase Gabriela Martins, Diogo Ramalho, Ricardo Caldeira e Karla Ramalho serão as vozes fixas, mas toda quarta feira a voz de são sebas pode ser VOCÊ.

Escreva para: vozesdess@gmail.com que selecionaremos o seu texto para ser postado no nosso blog!

Leia! Compartilhe! Escreva!

 

Samuel Estrella –  Músico, Produtor, Conselheiro de Cultura – Representante do Coletivo Calangos Sounds.

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FAVELA CARENTE DE FAVELADOS

Todo dia embarco em um navio negreiro entre vários com centenas de itinerários. Destinos distintos. Vejo pessoas. Mal sabem que viemos de um lugar comum. No desembarque já sinto o peso, não da pressão atmosférica, mas da pressão por produção para ganhar meu pão.

Se não deixo de dormir jamais consigo o pão dormido. Olhem a incoerência!

Ao voltar para a cidade-sono me deparo com as notícias da mídia: Assaltaram ali, mataram acolá, estupro bem cá… Enfim, nunca tenho tempo para averiguar.

Quantas horas extras poderei fazer? O final de semana já que me é renumerado, passo os dias pensando em trabalho.  Esse sagrado tempo de descanso físico, quero repousar com minha mente já repousa e meu corpo engessado pelo medo adquirido ao acreditar nas notícias que não pude conferir.

A cidade é feita de barracos! A comunicação violenta é a mais utilizada, evolui desde a escravidão. Sem barracos não sou atendido no supermercado, posto de saúde e secretaria da escola.

O lazer aqui é ligar a TV. Quando enjoo, o que me atrai vem de fora. Fora de mim, fora daqui. Mais uma vez no navio negreiro embarco. Rumo à felicidade vendida, uhull! Olhando para trás deixo meu lugar. Quando deixei de ti amar?

Cresci e vivi ali. Minha infância foi ótima. Recordo-me das brincadeiras na rua, das conversas com meus vizinhos.

Bate o desespero. Onde é meu lugar? Na cidade-trabalho ou na cidade-dormitório? Vi-me sem identidade, não quero resumi-la a números.

Mas farei um resgate! Na próxima parada desço.  Vou voltar para minha favela e gritar: Te amo!

 

13344645_1065063990217459_8750583697188088771_nSou Matheus Costa: Favelado desde nascença, educador por amor a difusão de bons valores, escritor de ruelas que ampliam o intelecto.

 

 

 

A ausência de nome é a presença do ser.

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O que netta via naquela ordinária barraca de feira não era uma maçã. Na verdade, era uma maçã. Mas não para sua Nova Verdade. Para qualquer um, o que se via era o corresponde ao nome dissílabo e oxítono que alguém há séculos tinha instituído: ‘maçã’. A fruta. Para os que tem fome, alimento; para as que estão de dieta, a alternativa; para os simbolistas, o fruto do pecado; para os poetas, o fruto lascivo como as bochechas coradas da moça.

Mas para netta, com sua admirável Nova Verdade, esta não era nenhuma das coisas que chamavam. netta é uma privilegiada. Não porque sabe o que é, mas justamente o oposto, ela sabe o que não é. A máscara do mundo caía, o Véu de Maya descobria lentamente a sons apocalípticos enquanto o mundo ao seu redor andava em círculos pensando estar chegando a algum lugar. É a doce arrogância que irriga a felicidade. Mas netta não. Não ela, que agora está em outro patamar. O ‘não’ elevara-a a um estágio de grandeza consigo mesma. Era uma majestade em segredo, a coruja soberana da noite escura, a única que exerga sob um ângulo mais abrangente. Ela vê através do escuro.

Deliciava-se com sua intelectualidade e ria sarcasticamente do paradoxo que encontrava-se. Logo ela, a tão simples netta, que conhece tão pouco das verdades formais do mundo. Mundo. Em um lugar onde tudo já foi descoberto, na geração do excesso de novidades forjadas, ela descobre a Nova Roda. Refaz a escrita. Lê o mundo de trás pra frente.

O nomes simplificam tudo, a definição enquadra injustamente. Quem denomina, deseja dominar, tomar para si o que não é do seu direito. E netta liberta-se dessa prisão morfológica e se concede o direito de criar dúvidas. Desconstrói o Conhecimento, transformando aquilo em sua frente em uma tela em branco. Mais que isso, em mata virgem e verde. Um mundo de possibilidades abria-se para que netta as moldasse.

Porém, e um forte porém, atinge seu peito fazendo sentir vergonha dos pensamentos possessivos que estavam por vir. Sobre os seu ombro direito, caí a decepção e sobre o esquerdo, vergonha de si mesma. O mundo de significados medíocres e limitadores que netta havia libertado daquela ‘fruta’, novamente voltavam moldados pelas mãos daquela estranha. De que vale despir o mundo de limites e impor novos?

Sentia-se mesquinha e tola por ter caído na armadilha que seu próprio ego criara.

Mas cultivar esse tipo de sentimento, principalmente agora, não lhe fazia bem. Então, da mesma forma que abandonou as velhas convenções aos descobrir a farça da ‘maçã’, ela também abstraiu a culpa vã e o desejo de criar definições para o mundo. Agora que netta rompe com os limites do concreto e com o seus próprios, enfim sente-se satisfeita e realizada. Aquela ausência tão forte de substância preenche seu íntimo, quebrando os moralismos que tanto a faziam sofrer. Enfim, livre: era uma mulher sem a necessidade de significados ou posses. Sentia-se à vontade para perceber o mundo de forma inocente e crua.

No auge da Paixão, netta caminha, caminha como se dançasse uma valsa em brumas, fazendo movimento para que sua consciência volte a entrar em sintonia com o seu corpo, que praticamente atrofiara-se com o hábito de sempre conter-se, enquadrar-se, intimidar-se.

Era apresentada a si de uma forma inesperada. Mas, por uma razão estranha, extremamente natural e familiarizada com esta sensação. A cada passo, dançava de forma que o corpo vibrasse ao seu próprio som, se entorpecesse com seu próprio cheiro e sibilasse uma Nova Música. Ela locomovia-se, personificando um autorretrato. O corpo fazia os movimentos das sensações que percorriam sua alma, agora sublime.

Rodopiando como a dama que dança ao som dos bandolins, ela sentia-se amada e ia ao encontro do amante. Pegou eu suas o que se transformava em seu instrumento de libertação. Acariciou-o e trouxe à boca.

Como se aquele ato sintetizasse os ritos de comunhão de todas as religiões do mundo, ela o tornou parte de si. O fruto que não era fruto, transformou-se em um pouco dela, que absorvia-o. Ela, agora transcendia porque é um pouco ele. Ambos, são mais que uma unidade, são plural compreendidos em uma forma física – a junção desprendida do que são, ou que nunca foram enquanto pensavam que era.

O mundo abre-se novamente. Um Novo Sol Verde dos Vegetais nasce gordo no horizonte. A vida nasce para que outras morram lentamente.

Ricardo Caldeira

Síndrome de Dimas

Barulho no telhado Pisando com cuidado para não acordar o adormecido Morador a ser furtado!

Pulo no quintal, Cachorro abatido pelo punhal, Sossegado pra roubar as roupas do varal.

Ladrão sem moral roubando do cidadão que já sofre as injustiças da convivência social.

Ladrão parasitário Roubando do operário que mal consegue viver do seu salário!

Se é pra cometer um crime, mate quem nos oprimi e divida os espólios com os mendigos e pedintes.

Diogo Ramalho

 

diogoDiogo Ramalho

O que é ser bandido?

Nestes últimos dias, a mídia vinculou fortemente a saída do goleiro Bruno da prisão, o goleiro recebeu um habeas corpus para responder em liberdade o crime de homicídio triplamente qualificado. No entanto, o que espanta, são todos esses holofotes dados pela sua saída, principalmente pelo fato do mesmo ter recebido diversas propostas de times, para voltar a jogar e fechado contrato com o time Boa Esporte, além de ter saído da prisão de mão dadas com sua esposa.

Acredita-se que quando alguém vai preso, o maior objetivo da prisão, não é só a punição, mas sim a ressocialização (o que não acontece) e que a chance de recomeçar, depois de cumprir uma pena é um direito( o que não é o caso, pois o goleiro não cumpriu nem metade da pena). A questão é que enquanto todas as noticias enfatizam o retorno do goleiro Bruno ao futebol, mais uma vez, fica uma sensação de impunidade em relação a Eliza Samudio, que foi assassinada e até hoje seu corpo não foi encontrado. Seu assassinato continua em segundo plano em toda essa história, desde a época que ocorreu o crime, onde ela foi subjulgada no período de investigação do caso, quando a mídia tentou desqualificá-la, por conta de suas escolhas.

É interessante observar que, muitos dos que defendem uma nova chance ao goleiro, são os mesmo da turma do “Bandido bom é bandido morto”… Mas o que é ser bandido hoje em dia, afinal?  Alguém que comete um crime de tamanha crueldade contra mãe do seu filho, não é considerado bandido, então? Até o próprio Bruno se pronunciou em uma entrevista, dizendo: “Não sou bandido”. Não é bandido, mas assassinou uma mulher. Como podemos chamá-lo, então? Tudo isso apenas reflete como os casos de feminicídio no Brasil ainda são tratados de maneira banal. Assim como Eliza Samudio, vários casos de mulheres continuam sendo tratados da mesma forma, ou até pior, pois são com pessoas desconhecidas e o caso de Eliza ganhou visibilidade, por conta da fama do goleiro.

No Brasil, são assassinadas em média, 13 mulheres por dia (Atlas da Violência 2016) e com uma Lei do Feminicídio (13.104) aprovada desde 2015, as mulheres ainda são obrigadas a se deparar com situações como a saída do goleiro Bruno da prisão. Vale lembrar que para todas as mulheres vítimas de feminicídio, não há possibilidade de “segunda chance”.

(Em memória de Eliza Samudio)

Karlinha Ramalho

 

Fontes:

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/02/24/ex-goleiro-bruno-deixa-prisao-apos-seis-anos-e-sete-meses-em-regime-fechado.htm

http://karlinharamalho.blogspot.com.br/

http://www.compromissoeatitude.org.br/treze-mulheres-sao-assassinadas-por-dia-no-brasil-aponta-atlas-da-violencia-2016/

 karlaKarlinha Ramalho

 

Fruto do meu ventre, causa da minha dor

Meu ventre faz vida

Meu corpo, fartura

Meio seio é alimento

Meus braços são para luta.

E tu que daqui saístes

Pequena cria, que cuidei e amei

Acolhi, alimentei,

Vive dizendo me ter admiração

Mas faz mulheres sangrarem

E não por menstruação.

 

Violência, silêncio e morte

Cercam mulheres no mundo inteiro

Em alguns lugares

Dizem não ser aceito

Mas comportam-se como natural.

Ridicularizam o feminismo,

A forma que nos protegemos,

Pois meu útero nega gerar a vida

Fruto do seu abuso sexual.

 

Como é complexo e rico

A composição do nosso feminino

Cheios de ciclos e de mistérios

No seio, no ventre, na alma

Protege, acolhe e ensina,

Reage, argumenta, reivindica.

É tanta riqueza num ser

Que por medo do nosso poder

Tentam aniquilá-las.

É a única razão de ser:

Mesmo nas sociedades ditas mais avançadas

A violência contra a mulher é generalizada

E nos fazem esquecer

Que já fomos consideradas sagradas.

 

Virilidade masculina é vendida nos comerciais

Empoderamento feminino,

Não se encontra nos jornais.

Mas vendem o nosso corpo

Consomem a nossa alma

E todo o dia nos subtraem!

Violência e difamação

Nos querem mesmo é pra reprodução

Não nos deixam representar a nação,

E ainda chamam de civilização!

 

Admiram a nossa beleza

Vendem nosso sexo junto com cerveja

Exigem nossa exuberância

Mas quando se fala em salários

E em representação social

Não nos dão relevância.

 

Não queremos mais ser só beleza,

O seu padrão sexy alias,

Não coloca comida na mesa

Do filho que você abandonou

E da pensão que não pagou.

Hoje somos quem mais estuda,

Vamos cada vez mais longe

É… a antiga “dona de casa”

Hoje é profissional de renome

Na difícil busca pelos espaços ditos de homem.

 

Fruto do meu ventre, causa da minha dor

É importante que você tome consciência

A sua violência nos subtrai.

E de tanto sermos subtraídas

Inexistimos na dor.

E dessa mesma dor

Nos reinventamos e

Nos fortalecemos para a luta.

Luta para sermos iguais

Luta para sermos consideradas

Luta para que nenhuma mais seja violentada.

 

gabbGabriela Martins

Faz parte

A pior solidão é daquele que se cerca

De desculpas para evitar o choro inevitável

As pessoas não aceitam mais o sofrimento,

Parte deletável de um existir quase descartável.

A pior solidão é a do alegre palhaço

Que faz munganga no picadeiro com o coração dilacerado,

Em frente às crianças gargalhadas e gestos espalhafatosos,

Enquanto no camarim apenas lágrimas

E o desconsolo!

A pior solidão é a do garanhão Don Juan,

Come todo mundo,

Paga de bom vivant,

Mas acorda triste e solitário

Todo dia de manhã.

Sofrer é necessário

Para que possamos aprender justamente o contrario.

 

diogoDiogo Ramalho

NÃO ESTOU RINDO

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Arte Ricardo Caldeira

 

Gargalhava lágrimas, tremia o peito em espasmos, fazia instantes de silêncio para puxar mais ar. O corpo inquieto, ofegante, balbuciava uma tímida solução que tentava esboçar em palavras desconexas. Numa distância suficiente para invadir qualquer espaço pessoal, um risinho de canto de boca e algumas palavras debochadas pairavam no ar, que de tão perto sentia seu hálito quente. Confusa, não conseguia distinguir entre o prazer e o sentimento de impotência e culpa por ainda estar ali, insistentemente.  Não sorria assim há tempos. Seria um secreto pedido de socorro?

Ricardo Caldeira